sábado, 24 de outubro de 2009

Coração Vadio

Esse meu coração vadio...

Que permeia sobre os sentimentos alheios. Coração que mesmo desolado, não se cansa de doar-se. Entregar-se sem amor, mas entrega-se como se tivesse, e demonstra isso na perícia do calor. Vadio, usa sutilmente os macetes da paixão, ele gosta de deleitar-se sobre afagos e abraços fervorosos e animados, no entanto viciadores. És vadio viciado pelas veredas da libertinagem, vadio és, nas veias da auto-sabotagem.

Caminhas entre finos braços e lindos lábios, no entanto, vê seu destino, sem rumo, sem prumo, eterno andarilho da brasa, a cada apego do qual de fato não se apega, mais atrasa o fim duma bela fábula. Aquela que qualquer coração, por mais vadio que seja, apetece viver.

Mas vadio que é vadio, não aprende, sofre, geme quieto, mas não se permite deixar de querer o gosto, o molhado da boca alheia, a pele lisa, as pernas, o dorso, a suavidade que o pescoço expressa e o embaraçar dos cabelos. Isso tudo tem o poder hipnotizá-lo, porém não pense que tire sua ciência.

Chora vadio, choras porque sabes teu final. Todo esse seu glamour é o seu próprio veneno fatal, é seu conto mortal, brutal. Conheces bem o caminho para encantar uma dama, és perito no calor. Entretanto, senhor vadio coração, por ser assim tão vadio, terás o teu salário e por sua vez este será...

Morrerás só, em sua cama, morrerás só, não terás nenhuma dama. Irás morrer sem conhecer a essência e a delicadeza que carrega o amor.

Morra vadio, morra, por favor!

Anderson Dias

quinta-feira, 24 de setembro de 2009




"Ainda pior que a convicção do não
é a incerteza do talvez,
é a desilusão de um quase!
É o quase que me incomoda,
que me entristece, que me mata
trazendo tudo que poderia ter sido
...e não foi!


Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Morte...




morte...

e a espada cortou o ar com a exatidão do tempo,
o ventou soprou forte, a alma voou livre.
o corpo enraizou,
como a raiz de um carvalho.
o sangue...
se perdeu na noite.

a flecha penetrou na armadura com uma profundidade mortal,
a alma gritou, se foi resignada.
o corpo caíu desfalecido,
no mundo que o recebeu.
o sangue...
borbulhou alimentando o mal que aflije o mundo.

a bala transpassou o alvo em uma trajetória perfeita,
a chuva veio, a alma se perdeu.
o corpo apodreceu,
como a maçã do pecado original.
o sangue...
envenenou a terra.

a palavra foi pronunciada com ira e ódio,
a alma se viu abandonada.
a morte veio,
em uma grande marcha triunfal.
o rio se tornou sangue,
o mar... a mortalha dos homens.

Benedito Carlos Costa

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Tortura


Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento,
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso d’alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Espectro



Anda um triste fantasma atrás de mim
Segue-me os passos sempre! Aonde eu for,
Lá vai comigo…E é sempre, sempre assim
Como um fiel cão seguindo o seu Senhor!

Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!

Ri sempre quando eu choro, e se me deito,
Lá vai ele deitar-se ao pé do leito,
Embora eu lhe suplique:Faz-me a graça

De me deixares uma hora ser feliz!
Deixa-me em paz!…” Mas ele, sempre diz:
“Não te posso deixar, sou a Desgraça!”

Florbela Espancaes - 28/06/1916

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Intangível



Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdém, que te faz mais bonita!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
Obtido em
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A Música




A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
Obtido em
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